O dono do mundo

Marcel Albuquerque   |  07/02/2010 :: 11:02

Coluna semanal de Marcel Albuquerque

- Lívia, me diz uma coisa… Eu ouvi de relance algo que você tava falando com a mãe; Eu também sou adotado?
- Tsc! Na hora certa, você vai saber da tua história.


E antes mesmo que o deus Tupã aparecesse duas vezes, a verdade bateu à minha porta. Ou melhor, ligou pro meu telefone; Curioso é que ao minha mãe me contar que eu era filho biológico de outro pai, isso foi completamente indiferente. Soube de uma versão que, de fato, eu nunca poderia testar se era real – mas, sinceramente, tanto fazia. Continuei amando meus pais e minha mãe, independente de qualquer traição que ela tenha cometido. Apesar de não ter sido o que ela me falou.

Por uma coincidência coerente com todo o resto do enredo da minha vida, que é digno de um roteirista mexicano dos típicos melodramas, meu pai genético – Darwin, me perdoe, mas parentesco não é simplesmente uma relação sanguínea – me procurou. Se fosse exatamente um dia antes, seria cogitável uma revolta, mas a ordem dos episódios seguiu o ritmo de Maria do Bairro; Minha mãe contou que meu genitor era outro e que ele a fez sofrer demais, que vivia ameaçando-a e tinha surtos – suspeitava de que ele sofresse de transtorno bipolar, mesmo que ela não tenha dito exatamente isso. Do outro lado do gancho, do outro lado do país, esse cara conversou comigo respeitosamente e disse que queria me conhecer, que fez muita merda na vida, todavia estava mudado. Ora, se há algo em que acredito na vida é na mudança. Entretanto, independente do crédito q’eu poderia dar naquele momento, mais do que desinteressado em um encontro, eu me preocupava com a forma que meu pai de coração reagiria – o qual tinha um problema nesse órgão do corpo, mas sempre me amou sem limites. Durante um tempo, o único laço que ficou entre nós foi o fato d’eu ter duas irmãs biológicas desconhecidas, mas, ainda assim, com receio dele ser quem meus pais contaram, preferi a distância inicial.

Passaram-se pouco mais de 4 anos e meu pai havia falecido. A finitude da vida marcou um encontro comigo e perguntou: quer pagar pra ver? Resolvi, pois, conhecer meu genitor, visto que uma hora poderia ser ele quem morreria e, cacete, imaginem que terrível seria o arrependimento de saber que não lhe dei sequer uma chance! Contactei uma das meninas – elas vieram no Rio outro dia e nos vimos – e pedi pra perguntar se seria possível eu conhecer o algoz daquele que me criou. Fui convidado pra sua festa de formatura lá no seu estado, parece que sonha em ser juiz, mesmo já coroa. Louvável! Aliás, ele saiu daqui comendo coisas do chão e hoje cresceu muito na vida em termos financeiros – isso me afastou por um tempo, pois não queria que ele sequer cogitasse que minha auto-permissão de ter contato com ele tinha algo a ver com alguma ambição material.

Cheguei no aeroporto e quem estava lá era uma das meninas. Fui levado até o escritório de sua empresa e, quando me vi, estava na frente dele. Não reconheci de imediato porque não é muito parecido com as fotos q’eu havia visto – é mais bonito de perto. Nosso abraço foi meio gelado, apesar disso, pareceu interessado na minha vida. Em poucos instantes, vi que era muito falante e não conseguia parar de compará-lo a mim: as marcas de expressão no rosto – acentuadas; a sobrancelha de mesmo formato – só que rala; as orelhas – maiores, dizem que as extremidades não param de crescer. Infelizmente, não herdei os olhos verdes e, estranhamente, notei que alguns trejeitos eram muito semelhantes, o que me deixou encucado, porque dou aula d’uma disciplina que nega veementemente essa forma de transferência.

Eu pretendia passar apenas cinco dias, mas fiquei uma semana. Nós não conversávamos tanto, porque a obra da vida dele é um monólogo – de falas e perspectivas. Portanto, em pouco tempo, eu sabia muito dele enquanto ele só supunha me conhecer. Ignorei qualquer coisa que ele possa ter sido e meus parâmetros eram apenas o conjunto de atos que ele fazia na minha fronte com meus princípios.

Ele gritava, mesmo de boca fechada – o que era raro de acontecer: “sou o dono do mundo”. Isso me incomodou, porque, afinal, ele deveria ser o exemplo maior de que o homem é o que é de acordo com seus contextos, mas ele acabou seguindo o espírito liberal do self-made man. Daí, como uma espécie de Lionel Luthor – nem pra ser Lionel Messi! – ao mesmo passo que tinha dos mais variados preconceitos, ele parecia pretender-me seu sucessor. Não contente em ser um conservador e celebrar a desigualdade, é disseminador deste ideário. Por conseguinte, mesmo com poucos movimentos dos ponteiros de seu relógio de marca, eu soube que jamais seríamos amigos, só que nada impediria de mantermos alguma relação, porque tenho próximos que discordo bastante – mas confesso ainda não entender o porquê de minha persistência, talvez a vontade de ainda ter alguém pra chamar de ‘pai’.

Fiz tudo de acordo com o script, disposto a um bom convivío que não seria corriqueiro. Nas conversas, pela divergência exagerada, negligenciava-me de expôr certas posições, pensando em não assustá-lo. Fui à formatura dele, fomos a jantares da elite próxima a ele e, apesar do desgosto, mantive uma certa pose – ele não faz idéia de como me esforcei.

Ao chegar em casa, reinterei o quanto eu amo minha família e que não são células, hemoglobinas, espermatozóides ou qualquer similar que define afinidades. Mas, não, a história não poderia ter um final feliz assim, por se tratar de um drama. Eis que, então, ele falou mil coisas que não foi homem de falar na minha cara, ameaçou de várias coisas e, a todo momento, reagia paranoicamente às minhas falas, relacionando tudo ao meu pai criador. Vejam bem… Logo ele, supostamente autor de sua vida, teve a falta de sapiência de consolidar a relação comigo. Por um ódio mortal nítido que entendo, mas que virou uma muralha intransponível para o presente.

Após mil ofensas, debochou d’eu estudar História e de minhas demasiadas esperanças para com o mundo. Ah, que equívoco! Pedi, pois, a Hermes para que entregasse a ele uma mensagem. Nela eu dizia que, enquanto ele ganhou sua vida repreendendo, eu optei por conhecer a história e, assim, compreender. Então, eu compreendo – sem culpar ou absolver – mas sem nunca perder minha posição no mundo, o que me impede de perdoá-lo. E é por isso que não podemos andar lado a lado, visto que, por mais que um golfinho se apaixone por uma raposa, eles nunca terão lugar para criarem seu ninho; Tão díspar do que me rodeia, posso dizer, negando o dito popular: não sou dono do mundo, nem filho do dono. Sou filho do mundo.

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Marcel Albuquerque   |  Data: 07/02/2010 :: 11:02
 
 
17 Comentários para “ O dono do mundo ”

 

     
    Jheyds Kann (1): 07/02/2010 às 16:41
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    Filho do Mundo, Grã Finale ;D

     
     
    loko (2): 07/02/2010 às 18:57
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    É triste quando fazemos consideráveis concessões em razão de um afeto, mas depois nos arrependemos pois traímos a nós mesmos.

     
     
    Sr. Sincero (3): 07/02/2010 às 19:35
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    Não entendi mto bem o texto

     
     
    Rodrigo Gonsalves (4): 07/02/2010 às 19:49
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    Uma coisa ruim, já é ter toda uma vida e no auge dessa vida, saber que é adotado, e todo aquele amor, que você investiu era para pessoas, que de sangue não eram seus pais. Mas outra coisa ruim, é você viver toda sua vida, investindo seu amor em seus devidos pais, e um dia um deles ir embora sem dar nenhuma satisfação. Então ambos podemos dizer que somo “Filhos do Mundo”. Good Job.

     
     
    Neto Barros (5): 07/02/2010 às 22:23
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    Marcel, tu é o cara!

     
     
    João Carlos (6): 08/02/2010 às 04:24
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    É uma visão um tanto quanto conservadora das coisas… saber que não é aquilo que se pensa, não demerece tudo o que você já fez. Algumas coisas “de sangue” não devem ser necessariamente adoradas. Não é porque é seu pai que você deve ama-lo incondicionalmente, cabe a ele tambem dar toda a estrutura para que esseamor seja retribuído. Filho do Mundo, todos somos.
    Ah, corrige aí não é “reinterei” é “reiterei”, sem o N.

     
     
    Paulo 'Shiroh' Candido (7): 08/02/2010 às 05:53
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    Você é o que você vive, acima de qualquer genética ou condição material. Seus genes são apenas físicos, ao passo que seu espírito – aquilo que te faz ser o único que você é – é moldado pór aqueles que você deixa permear-se. O mundo é apenas a porta de entrada para seus olhos e ouvidos, mas seu coração é a sala ‘VIP’, onde só quem te têm de algum modo pode entrar…
    Marcel, sempre arrebentando nos textos. Muito bom!

     
     
    Matheus Nerd (8): 08/02/2010 às 11:06
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    Pai é diferente de genitor apesar da maioria das vezes estarem interligados…

     
     
    Marcel (9): 08/02/2010 às 15:09
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    “Loko”, permitir-se fazer algo e ver que não era como se queria é diferente de arrepender-se. Quase sempre, isso é mais importante que a inércia.

    João Carlos, Rodrigo, Matheus e Shiroh – Sem dúvida, o principal tanto em termos de personalidade como de afetividade são as condições sociais. E filho do mundo todos somos, é claro, eu apenas evidenciei que, de verdade, é só isso que a gente é.

    Aos outros: =D

     
     
    acollier (10): 09/02/2010 às 08:34
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    Muito bom cara!
    Laços sanguíneos não significam muito se não se tem a minima afinidade..

     
     
    Monique (11): 09/02/2010 às 09:13
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    Acatar as leis de Mendel como absolutas é tratar o ser humano como um selvagem. Eu já te disse isso outrora!
    Os aspectos sociais são bem mais relevantes, já que somos diferentes dos animais por possuirmos inteligência.
    Ótimo desfecho!

     
     
    Daru (12): 10/02/2010 às 08:05
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    Normalmente eu tenho algo a comentar sobre o texto, mas desta vez não há muito o que completar, o texto está ótimo, com o desfecho muito bem bolado.

    Realmente é uma estória bem novelesca, mesmo assim eu gostei… é sua forma de contá-la, hahahaha. ;D

    Abraço.

     
     
    Link e Links 2 | (13): 14/02/2010 às 21:03
    Gravatar

    [...] Texto: O dono do mundo [...]

     
     
    Estevão (14): 18/02/2010 às 15:54
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    Olha, teve um fim excelente.

    Alias todos os seus textos são excelentes, sou suspeito pra falar, sou seu fã.

    Junte tudo e quem sabe vire um best-seller hehehe

    Abraçss

     
     
    Eu (15): 26/02/2010 às 04:01
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    Excelente

     
     
    Lucas (16): 02/03/2010 às 20:12
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    Cara “…Aliás, ele saiu daqui comendo coisas do chão e hoje cresceu muito na vida em termos financeiros…” é nada mais justo do que ele ter toda razão! esses termos de igualdade nunca caberão a nossa sociedade! nunca! o quê aconteceria se houvessem no mundo apenas leões ? Concordo perfeitamente o seu artigo sobre “Pai é quem cria” porém discordo em relação ao que diz sobre o fulano ai huaha.

     
     
    Marcel (17): 03/03/2010 às 11:25
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    Lucas, eu não entendi exatamente tua posição. O personagem avalia que, por ele ter passado fome e hoje ter dinheiro, todos podem fazer o mesmo. Tu concorda com ele ou não?…pq eu não!haha

     

 

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