Ilha de Plástico

Marcel Albuquerque   |  30/01/2010 :: 04:01

Coluna semanal de Marcel Albuquerque

Conta-me o tio de Chico, Seu Aurélio, que ilha é uma extensão de terra cercada de água por todos os lados; um objeto completamente isolado.

Hoje é sexta, primeiro dia do Ano Novo.  Já está tarde e não vejo ninguém neste andar da casa – não temos energia a essa hora, porque trouxemos pouco óleo para o gerador, devido ao preço. Aí, não tem jeito, o pessoal fica fugindo dos mosquitos. Devem estar lá no deck tocando violão ou tomando o pouco da cerveja que ainda temos; fumando, talvez. Será que tem alguém escrevendo como eu? Acho que não…

Estamos numa ilha privada em Angra dos Reis. Umas dez suítes, cachoeira na varanda, salão de jogos, sauna e tudo mais. Somos amigos do caseiro, não se enganem – às vezes, quando o patrão está pro Nordeste, o Gil chama a gente; tenho um sentimento paradoxal, neste lugar. Ao mesmo passo que me divirto por desfrutar desses privilégios burgueses, lastimo o isolamento em que essas pessoas vivem. Com amigos e tudo mais, entretanto distantes, vivendo de status e ostentação. Esqueci de comentar o quão esdrúxulo é o fato de haver piscina aqui, tendo tanta água nos rodeando.

Sempre achei ridículo o que chamam de “Orkuticídioâ€. Na Sociologia, o grande teórico do encerramento da vida auto-propositado  – que, como bem observa Camus, é a questão filosófica por excelência – é Émile Durkheim e, sinteticamente, ele diz que o suicídio é proveniente da falta de lugar no mundo, de identificação; o que ele chama de anomia. Ora, no mundo virtual, é muito mais fácil. Algo te incomoda, você se mata e, como gato, usa outras vidas. Eu, por exemplo, desfiz meu perfil num dia porque queria me isolar, havia encerrado um namoro e não queria saber das conseqüências pr’os outros… Afinal, iam me encher de perguntas e avaliações sobre ela. Contudo, não foi viável a distância deste site, porque era o único canal de comunicação com amigos meus daqui de Angra – inclusive, um deles acaba de ir pro quarto com a namorada.

Eu pretendia me isolar, viver algo fora do meu cotidiano. Vejam só: Reveillón em Angra, num lugar paradisíaco, mergulhando e tendo que cuidar das tarefas de casa no maior clima de diversão. Parece propaganda de resort – infelizmente, enganosa. A isso, soma-se a esperança que nasce com a virada de um ano, porque o tempo é uma forma de espaço. Daí, ilhamos 2010… e tudo pode ser novo. Planos, sentimentos, conduta.

Em meio à nossa aventura, houve uma desventura. Estou de fato numa ilha: longe daqui, mas tão perto daqui, uma pousada foi soterrada e parece que ocorreu também algo num morro no centro da cidade. Não sei bem, apenas ouvi comentários aos murmúrios soluçados no telefone. Alguns conhecidos de amigos meus ficaram desabrigados e uma menina faleceu, parece. Enquanto isso, nós não corremos nenhum risco, seguros que estamos numa casa bem projetada que está à venda por 5 milhões, pois o dono está falindo e quer vender por essa quantia abaixo do preço. Pois é, parece que continuo no mundo virtual.

Pensando em criar uma nova realidade, banhado por esse equívoco de esperar – já dizia o Chico lá do começo do texto, “quem espera nunca alcança†– que o Ano Novo seja outro tempo, estou pensando em aceitar dar aula num pré-vestibular aqui por Angra, porque vou morar sozinho e preciso de dinheiro. Logo essa etapa de estudos, que virou o centro do direcionamento escolar, de método tão mercadológico. Falaram que as turmas são separadas de acordo com o “potencial†dos alunos, porque uns alunos podem atrapalhar outros e é necessário fazer o nome do estabelecimento, que ainda é novo. E agora? Mais uma ilha na minha vida… Isolo pensamento e prática? Mas eu posso me isolar na utopia de só me relacionar ao que concordo?

Já vai dar três da manhã e tenho que dormir, porque amanhã vamos mergulhar. Quanto a vocês, espero que não tenham boiado nessa imersão. A cada sílaba, eu me perdia pensando nela, mas me ilhei neste texto. Todavia, um fato é evidente: viver em sociedade é existir em arquipélago, pois, por mais que sejamos ilhas, dotados de diferenças, formamos unidades – convencionadas até – mas que se integram. Quanto a você, meu amor, espero não te ilhar em pensamentos e torço pra que você não aspire q’eu te isole como amiga, pois você é toda, não parte. E que sejamos capazes de construir vários anos novos, independente do que o calendário disser.

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Marcel Albuquerque   |  Data: 30/01/2010 :: 04:01
 
 
12 Comentários para “ Ilha de Plástico ”

 

     
    jhonathan (1): 30/01/2010 às 16:55
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    “viver em sociedade é existir em arquipélago, pois, por mais que sejamos ilhas, dotados de diferenças, formamos unidades – convencionadas até – mas que se integram.” =)

     
     
    Thamires (2): 30/01/2010 às 18:06
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    Da maneira como Marcel escreveu sobre Durkheim tenho certeza quase absoluta que ele faz Cs!
    né Felipe Neto?

     
     
    Jheyds Kann (3): 30/01/2010 às 18:08
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    Caramba Marcel, esse pra mim foi o melhor post seu até agora!
    Parabeens!

     
     
    TaLi (4): 30/01/2010 às 19:59
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    clao, clap, clap, clap, clap, clap, clap!!!!
    Otimo texto Marcel. Muito lindo, e a frase da conclusao, porra… otima!
    “viver em sociedade é existir em arquipélago, pois, por mais que sejamos ilhas, dotados de diferenças, formamos unidades – convencionadas até – mas que se integram.” Perfeita!!

     
     
    Marcel (5): 31/01/2010 às 07:18
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    Sim, Thamires, faço CS…vc tb?Não, né?rs

    E, Jheyds, esse não acho que foi o mais criativo, mas é o que mais expressei um sentimento real…

     
     
    Mariana (6): 31/01/2010 às 14:00
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    Belo texto, Marcel.

     
     
    João Carlos (7): 01/02/2010 às 07:04
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    vivemos mesmo isolado numa ilha cercado de pessoas por todos os lados.

     
     
    Daru (8): 01/02/2010 às 15:45
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    Primeiramente, Marcel, andou de férias? x) Da forma como anda a “Coluna Semanal” irá passar a ser “Coluna Mensal”. Hehehehe.

    Se não é de madrugada que surgem as ideias, então desista, muito pouco provável que seja em outro momento ;D Hahahhahaha. Falo isso por mim apenas.

    É incrível a quatidade de mundos que podemos viver, o real, o virtual, o ideal entre outros que não nos cabem o controle.

    Ótimo texto para um belo retorno, abraço.

     
     
    Thamires (9): 01/02/2010 às 16:10
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    Sim faço Cs na ufrj hahaha
    é q vc explicou de uma forma mto boa e clara o conceito de anomia em Durkheim!
    da lhe “O Suicídio” rsrs.

    Admiro mto teus textos , por mais que não deixe explícito , sempre deixa uma análise sociológica de algum fato social explícita ou implícita.
    Parabéns pela parceria com o felipe Neto. Beijos

     
     
    Paulo Sérgio (10): 04/02/2010 às 09:11
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    o que significa CS ?

     
     
    Marcel (11): 04/02/2010 às 14:55
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    1)Valeu, Daru!

    2)Paulo Sérgio, CS significa Ciências Sociais,curso que eu e Thamires fazemos. Falando nisso…tu foi no ENECS, menina?Tá em qual período?Eu já tô me formando. Conheço uma galera daí…pergunte aos garotos do futebol ou D.A se conhecem o Argentino.

    3)O Felipe foi consertar algo que tava certo. Segundo Camus, o suicídio não é UMA, mas A questão filosófica por excelência.

     
     
    Giuliane (12): 05/02/2010 às 20:08
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    parabeeens pelo texto!

     

 

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