Coluna semanal de Marcel Albuquerque
Olha lá no fundo da sala. Tá vendo aquela menina ruiva? Não, não aquela de cabelo tingido! A outra mesmo, com um tufão na cabeça, todo desgrenhado, estilo Elba Ramalho em capa de disco de vinil. Então… Agora repara atrás dela. Pois bem, tem um menino ali jogando futebol com os dedos na carteira, né? Ele é o personagem principal da história de hoje, seu nome é Bob.
Como a vida era divertida pra esse menino! No colégio, era até um bom aluno, os professores já diziam que tinha futuro, mas ele gostava mesmo é de jogar bola na Educação FÃsica, rabiscar a parede com seus desenhos, ganhar alguns tazos, quando senão levar seu io-iô para mostrar uma nova manobra pr’os amiguinhos. Quando saÃa dali, ainda tinha o judô pertinho, onde fingia pra ele mesmo que estava se preparando para ser ninja, na cidade de Rashlev, que ficava no Tibet – segundo sua mente fértil. Aliás, naquela cabeça, se plantando tudo dava. Tudo tinha um significado diferente pr’aquele garoto: os colegas, inclusive, em sua imaginação, eram de paÃses diferentes e formavam uma escola para estrangeiros no Brasil, parecido com o que tinha visto outro dia na TV. Mas, caro leitor, não se espante: não era esquizofrenia, ele sabia bem que não era nada disso, apenas fazia da vida uma brincadeira – é bem verdade, sem avisar aos seus amigos de que estavam brincando.
Com ele, nada passava batido. Cortar o cabelo não era somente ter fios cortados por um cabeleireiro, de modo que fosse feito um penteado. Lá ia ele aparar o cabelo, como recomendou sua mãe, mas deixando crescer como o Tommy dos Power Rangers e, como tem sido há anos, com um pequeno rabinho destacado, porque ele queria ser criança pra sempre, que nem o Peter Pan.
Mal sabia, mas pouco tempo depois viria a largar os bonecos. Tinha vááários, impressionante! Contava que sua caixa de brinquedos era tão grande que, certa vez, jogou um boneco ali para dentro e nunca mais o achou. Não sei confirmar se a história é verÃdica, mas uma coisa é fato: falam que garoto tem que gostar é de carrinho, menina que brinca com boneca. Só que, senhores, a brincadeira era muito mais pra ele. O Super-homem não era o Super-homem, tampouco Shurato era Shurato e Ryu atendia por tal nome. Cada qual era outro alguém, pois Bob não podia se ater a reproduzir, ele precisava inventar. Largou-os já tarde, por volta dos doze anos, quando as espinhas começavam a brotar em seu rosto e a malÃcia em suas mãos. Decidiu deixar os bonecos na boca de uma favela, próxima a sua casa. Desfez-se dos brinquedos com esforço, largou um pedaço de si – que demandou substituição. Foi então que começou a escrever.

Primeiro, ele escrevia como seria a novela de sua vida. Pouco mais tarde, já conseguia inventar outras coisas – todas atreladas, era sempre a vida dele sendo contada de outra forma. Na verdade, isso resume o prazer de Bob: inventar a vida, porque a realidade era cansativa demais. Ah! Até que, enfim, chegamos ao cerne dessa crônica. Dizia Bob que ele queria ser adulto, pois queria logo era trabalhar, ter compromissos. Mas suas escolhas foram indicando algo não muito condizente: a carreira que ele decidiu seguir não exigia que ele fosse logo para o mercado e, por sinal, fez questão, inconscientemente, de não passar no vestibular no primeiro ano, só pra não ter que lidar tão repentinamente com a mudança do colégio para a faculdade. Ademais, tem uma paixão, plausÃvel até anos atrás, mas que hoje mora na Escócia e não tem perspectiva de sair de lá. Prova irrefutável de seu medo de crescer: se dedicar a ela é renegar a necessidade de ter compromissos, pois, preso em seu amor platônico, não vê mais ninguém, ao passo que tem noção do quão impossÃvel é ficar com ela.
Hoje ele completa vinte e dois anos. Não fez quinze, que é a idade da menina virar mulher, dezoito para tirar a carteira de motorista ou vinte e um para ter maioridade penal completa. Foram vinte e dois anos, a primeira idade que não quer dizer porra nenhuma! Agora ele é, simplesmente, adulto. E como fazer para ser?
A pergunta que brotou em sua cabeça ao acordar foi “Será que sou adulto?â€. Isto, pois, ainda vê desenhos no Cartoon, mata aulas quando o professor é chato demais e tem toda sexta-feira como o dia sagrado de jogar vÃdeo game com os amigos. Como ser adulto? Achava, quando criança, que havia uma espécie de curso para ser adulto. Quem ensinou sua mãe a fazer aqueles bolos de fubá, a limpar a casa com todo aquele afinco? Ele sabe que não consegue, além de jogar a poeira para debaixo do tapete. O que faria quando chegasse o novo armário em casa ou quebrasse a descarga do banheiro? Seu pai tinha a resposta, ele também – pois sempre tinha -, mas não a certa. Talvez, o diploma de adulto hoje em dia seja daqueles que não necessitam de presença.
Como era respondão! Sempre ouviu que quando crescesse seria igual aos seus pais – crianças crescidas que são; O tempo passou e algo além dos ponteiros também se movimentou: a vida seguiu, a cabeça mudou e passou a questionar seus valores, a fazer muito do que seus pais faziam.

Já dizia Sartre, o inferno são os outros, mas os outros próximos, uma vez que é fácil apreciar o distante, porque pouco nos toca. Nossos pais sempre são os piores, os dos outros os melhores – concepção inversamente proporcional no que se refere aos avós. Não à toa, afinal, como Bob aprendeu nas aulas de Literatura, o movimento que vem nega o que passou, pois sempre se “mata o velhote inimigo que morreu ontemâ€. DaÃ, como seus pais foram a oposição aos seus avós e você é a oposição aos seus pais, existe a chance nada remota da casa da vó ser um incrÃvel aconchego, tal qual o Renascimento se inspira em senhores barbudos da Grécia Clássica e não seus vizinhos temporais. Mas somos obras inacabadas e, como tais, vivemos em eterno processo de construção. Por isso, seremos contrários a nós mesmos, em devidos momentos.
Bob não sabe ter obrigações. Não sabe ter que ser adulto, só sabe sê-lo, vez outra. Vive de fantasia, decidiu fazer Cinema não à toa. Entretanto, se tem algo que aprendeu com o mundo real é que a maturidade não vem com os anos, mas com a capacidade de aprender algo de suas experiências – visto que Jason continua exterminando pessoas, em sua saga de sextas-feiras… que bom que Bob joga vÃdeo game! Pode até se assemelhar mais a seus pais do que supunha, mas não quer ter de ver que o mundo é o mesmo de seus pais, porque ele não discordava meramente deles, pois hoje não sabe se é adulto exatamente pelo fato de ser tão dÃspar de seus parias. Deseja, de verdade, é um outro mundo. O que lhe resta é mudar o mundo que o rodeia, mesmo que seu fantástico mundo.








































Ja estava pensando que não iria ter essa semana. Mudou de dia ou foi só essa semana mesmo?
Bom sobreo texto…cara você se supera a cada dia, este é especial para mim porque me identifiquei por exemplo com alguns fatos.
Sempre fingia que os meus bonequinhos não eram o ryu, ou o Goku. Pegava o shiryu e fingia que era um jogador de futebol, ja que tinha varios bonecos da seleção brasileira, mas apenas 7 e isso não completa um time. Sempre imaginava que quando eu não estava olhando os bonecos criavam vida. Como em Toy Story. E me identifiquei também com o fato da caixa de brinquedos grande, sempre jogava um boneco lá e não achava mais.
Foi dÃficil me desvazer deles, talvez se não fosse tão orgulhoso hoje com 17, quase 18 anos ainda brincava com bonecos, mas isso me da uma certa vergonha. Não é a mesma coisa com os videogames, nos videogames a história é sempre a mesma, com os bonecos eu era o autor, ator e produtor das aventuras he he.
Muito obrigado por esse texto, me fez recordar os melhores momentos da minha vida. Esse texto eu salvei aqui e vou ler de novo e de novo. Parabéns mais uma vez Marcel, você se supera cada dia mais.
Me responde uma outra coisa, você pensa em se tornar um escritor, ou quem sabe ja é um. Ja escreveu algum livro? Se não, pretende escrever um?
Ate mais e parabéns novamente.
Seus textos são sempre excelentes!!!
Muito bom mesmo, gostei a forma como vc apresentou o personagem.
Ei Felipe você conhece algum bom site de crônicas e/ou contos?
—
No momento to por fora cara. Marcel, sabe?
Só uma contestação, não houve nenhum conflito entre a segunda e primeira geração. =P
Como sempre seus textos têm um efeito de realidade muito grande em mim. A idade da personagem é pouco mais avançada do que a minha, tenho 17, mesmo assim consigo ver toda a bobagem da minha vida escrita ali. Guardo meus bonecos até hoje, nem encosto mais neles, inclusive não encosto neles desde uns 12 anos também, mesmo assim estão lá. Tentei fazer o cabelo que nem desse cara que tu citaste, mas a inspiração veio de uma carinha que pra ser sincero não lembro o nome, mas lembro que era de “Beyblade”. Atualmente tentei a começar a escrever, apesar de não estar dando muito certo e tenho uma espécie de platonismo, ela, por sua vez, mora na França.
No mais, acho que estou crescendo, estou fazendo uma faculdade séria e sem intenções de ficar fantasiando nada, devo estar gostando porque lá sim é a terra do nunca. NÃO É POSSÃVEL! Dentro da sala de aula é um universo paralelo, o tempo definitivamente não passa!
Agora só umas besteiras sem importância pra não perder o costume: o nome dos meus pseudo-amigos-imaginários sempre era/é Bob, hahahahaha. E curti muito aquela imagem do garoto fugindo do cogumelo lá em cima. xD
Parabéns por mais um brilhante texto, abraço.
“Seus textos são sempre excelentes!!!”
Concordo!
Atualmente comecei a mexer em blogs, e me impressionei com esse. Todos os textos desse site são bons.
Parabéns!
ObrigadÃssimo, gente!A infância remete a muitas histórias mesmo…e, Paulo, fui uma excepcionalidade desta semana. Aliás…devo me referir a você de novo, porque fiquei muito feliz com você ter salvado o texto! =)
Ah!E quanto a ser escritor, por enquanto sou só daqui…’inda não publiquei nada, mas pretendo. Ano passado, tive duas poesias escolhidas num concurso internacional, mas acabei não deixando publicar por bobeira. Vou me inscrever em uns concursos doidos e procurar editoras, mas a faculdade tá acabando e um namoro tá começando…então, tô com a cabeça em outras coisas no momento, mas pode ter certeza que você me instigou agora.
Guilherme…te dizer que não conheço, mas vou procurar pr’um dia desses colocar no #ficadica!;)
Ah!Daru, acho que fomos separados no nascimento!hehe
quase choro agora…
belo texto lembrou meu eu 5 anos atras…
identifiquei-me com alguns detalhes. Um dos melhores até agora.
Me identifiquei..
boa o/
Texto incrÃvel,eu sempre fui e as vezes ainda sou a menina que não quer crescer!
Vc escreve muito bem, envolve o leitor de uma forma sutil!
Parabéns.
obs: maioridade penal completa não é mais 21 anos ,com 18 já é considerado imputável em todos os aspectos.
Provável que vc tenha colocado assim de propósito para combinar com o contexto do parágrafo, mas não consigui ler e deixar passar batido.
Que isso, hein, Re!Pegou exaaaatamente a questão – e o bom é que não deixou passar batido, sinal que prestava atenção no q’eu falava…=)
Achei que seria válido porque o presente do texto poderia ser em outro tempo…hehe
Acho que a principal questão é: Porque crescer? Deveriamos crescer e evoluir, quando parece estar cada vez mais claro que é o contrario disso que realmente acontece com as pessoas.
A cada ano que se passa as pessoas vão se imbecilizando mais, vão se fechando para o mundo e para as pessoas, começando a desconfiar de tudo e de todos, veem maldade até nos mais sinceros elogios, não se permitindo mais amar e nem gargalhar, com medo de que isso demonstre alguma “fraqueza”.
São cada vez mais burocráticas e menos naturais, vão perdendo dia apos dia a magia da infância, esquecendo os sonhos que tinham, e vão se tornando aquilo que sempre odiavam.
Já escrevi algo sobre o assunto, mas de uma forma diferente.
http://surupanganews.blogspot.com/2009/04/o-pior-e-que-e-verdade.html < Se tiver a toa da uma olhada.
Eu sempre visitei esse blog, mas parece q com o tempo ele se torna cada vez melhor, a maturidade que você esta alcançando como escritor é absurda, e poder acompanhar isso é para mim um privilegio. Parabéns uma vez mais.
Hmm. Acho que meu comentário vai ser um pouco diferente dos outros. Mas só um pouco. Até vai ser duplo!
Primeiro vou falar desse texto aqui. É excelente, você já sabe, todo mundo já disse. As suas descrições são ótimas para a gente se encaixar nelas (os comentários confirmam isso né). Eu mesmo vi várias detalhes. Cara, isso é ótimo. Lindo.
Mas a história ia indo. E parecia que a mensagem a ser passada não era nada demais. Até a metade do ultimo parágrafo. Nossa!! Eu acho que o mais importante de qualquer texto é o final. E cara, por mais que o jeito que você conduziu o texto tenha sido ótimo, não seria nada sem as sábias palavras do final. Foi uma boa surpresa. Parabéns!!
Ahhhh e agora outro comentário: eu comentei pela primeira vez na semana passada e você respondeu (não sabia que tinha resposta aà acabei não vendo e só vi agora haha. Ahh você entendeu errado!! Veja lá na namorada de minuto: eu disse (eu poderia ter escrito isso!). Não foi uma crÃtica!! Foi mais um comentário do tipo: você pensa no modo de montar uma história de um jeito parecido com um meu! Se eu tivesse tido a sua idéia (que era boa) poderia ter escrito um texto muito parecido!!
E sobre o antiquado, é acho que me expressei ainda pior aÃ. Eu tenho péssimos costumes: uso muito a palavra antiquado e uso errado!! Burro eu hahaha. Não, era outra coisa: acho que naquele texto uma linguagem mais falada, mais cotidiana, menos estruturada seria excelente pra misturar a realidade com um sonho. Bem, sei lá, talvez eu esteja bastante errado quanto a isso mesmo. Aliás, talvez não, acho que estou. É só o meu modo de ver.
Agora pra finalizar (escrevi pra caralho), queria dizer que você escreve muito bem, agora, esse texto aqui é muito bom (e vai além do “interessante” chôcho que eu disse do outro haha). Continue assim, que nós, leitores, continuaremos assim: elogiando!.
Cara, é incrivel a forma como você escreve!!!
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me indentifiquei bastante, to passando por algo bem parecido rs
Vivo cada dia praticamente assim, extraio e crio das situações do dia-a-dia também.
Marcel……. você escreve pra caralho, véi *——–*
haha, desculpa a linguagem, mas só assim pra exprimir o que exatamente quero dizer.
[...] Texto: Não quero ser grande [...]
Fantástico!
Como disseram, é uma parte de cada pessoa nessas linhas, impossÃvel não se identificar. Fiz como o Bob, larguei meus bonecos e aprendi a escrever – hoje fico triste por saber fantasiar um mundo completo e não ter como representa-lo.
Texto muito inteligente e bem escrito.
Parabéns
[Momento nostalgia]
Acho que como todo mundo se identificou, eu tbm, sempre fui muito sonhadora, fora o mundo das barbies que eu inventava, tinha um outro mundo paralelo só meu e até hj tbm fico imaginando coisas antes de dormir ou no caminho pra facul, mas não como antigamente. E pra externar toda essa criatividade, como o Bob tbm quis fazer Cinema, mudei pra jornalismo, entes tbm pensei em publicidade, quando criança até poetisa, mas acabei fazendo comércio exterior… hehehe
E ao contrário do Bob eu sempre quis crescer o mais rápido possÃvel, achava um máximo ser ser adulto, hj com quase 19 anos não sei se posso me considerar adulta, mas pra mim parece que tudo aconteceu tão natural, sem nenhum “baque” que me fizesse querer voltar a ser criança ou a algum outro ponto anterior da minha vida, acho que cada fase tem sua beleza e magia.
Ótimo texto, Parabéns Marcel!
[...] Texto: Não quero ser grande [...]
Você andou me vigiando?
[...] comentário Ir para os comentários Fuxicando o Bobagento, acabei parando no Controle Remoto num post onde me identifiquei muito sobre o “crescer”, onde [...]
Monique – Isso é uma coisa curiosa. O sentimento de ser muito diferente dos outros ou da solidão é muito comum hoje…nos SEIS BILHÕES de habitantes desse planetinha!huaUHAauhaUHA…mas há intersecções. Se há!
Dos Anjos – Obrigado pelos elogios e, quanto a criticar meus textos, fique à vontade – MESMO -, mas saiba que eu sempre retruco!=P …em todo caso, aquele texto era mais light mesmo, sem nenhuma reflexão explÃcita, apesar d’eu sempre querer dizer algo.
Seu texto é maravilhoso, maravilhoso mesmo.
Aiiiiiiiiii!!! Acho que qualquer um se identifica com esse texto *-*
Na verdade, eu ainda invento umas historinhas por aÃ, só pra dar uma descontraÃda do estresse diário, saca? kkkkk
Muito bom mesmo. Acho que um dos melhores do blog!
Bjux!
Felipe,
Visitei teu site pela primeira vez ontem e me deparei com sua assertividade escrita em cada opiniao. A principio admirei sua firmeza para logo depois assustar-me com sua aparente rigidez de ideias. Mas quer saber de uma coisa? Sua habilidade para composicao e realmente notoria, e desejo que seu futuro como escritor – se e que voce o almeja! – seja rico e prazeroso! Para mim foi muito gratificante encontrar textos coesos, fortes e coerentes na internet, ainda mais quando imbuidos de um vigor como o seu.
Esta sendo um prazer conhece-lo!
Se cuida.
—
Muito obrigado Blanco.
nao tinha lido nenhum dos seus textos ate agora… e gostei .. parabens, espero ter mais textos assim!
[...] Ele não está afim de você…Cai na real!Não quer ser grande…Nem eu! [...]