Coluna semanal de Marcel Albuquerque
Estou por aqui desde a chegada dos portugueses. No esquema de escambo, fui oferecido por ouro, que eles inventaram que era o grande valor do mundo. Se Ă© fato que toda relação inclui algum tipo de troca e toda ação visa o prĂłprio agente â mesmo se ele nĂŁo perceber -, nada mais direto do que querer ganhar a si mesmo â se ver no espelho.
Um dia, os pele vermelha cansaram. Afinal, se tornou Ăłbvio que o ouro valia demais para aqueles homens estranhos, que levavam-lhes a possibilidade de conhecerem eles mesmos â seriam orĂĄculos? Pois, entĂŁo, resolveram fazer exigĂȘncias maiores na troca de seus minĂ©rios. Mas a questĂŁo Ă©: eles cansaram de mim ou me consumir jĂĄ os consumia o bastante?
Devo me corrigir, senhores: eu estou aqui desde a chegada dos portugueses, mas sempre estive, de alguma maneira. Aqui e em todos lugares. Inclusive, contigo, neste momento. Vamos juntos Ă praia, talvez esteja contigo neste computador e jĂĄ fui a guerras, na ponta de uma espada. Posso ser magrinho ou fora de forma, depende dos lugares e canais que vocĂȘ desfila â e da fĂŽrma que vocĂȘ vive. Mas Ă© difĂcil que eu seja meio termo â e Ă© verdade que costumo ser bonito. Como dizem por aĂ: âSĂŁo seus olhosâ!
No cenĂĄrio de hoje, nĂŁo entrarĂŁo alguns personagens especĂficos, uma vez que todos jĂĄ estĂŁo por aqui. E nĂŁo adianta se esconder atrĂĄs da arvorezinha, porque vocĂȘ tambĂ©m faz parte desta estĂłria! Observe-me, como sempre faz: para sair de casa, vocĂȘ me vĂȘ. Se quebrar um dos meus lares, te dou sete anos de azar, mesmo que vocĂȘ ainda possa olhar para mim. Muitas vezes, estou no seu guarda-roupas, com suas intimidades. Ăs vezes, na cama, acordando junto contigo, dando-te âbom diaâ. Chegamos a andar juntos na rua! Mas devo ressaltar algo: nĂŁo sou eu quem guia vocĂȘ no trĂąnsito. Sequer te auxilio. Se acha que sim, nĂŁo sabe quem sou.

Espelho, espelho meu: dizem que sou teu, mas vocĂȘ apenas me adotou. Sou filho de Narciso, o que me faz, por excelĂȘncia, todo meu. O problema, meus caros, Ă© que nĂŁo sou o espelho. Meu nome Ă© reflexo e nĂŁo fique perplexo: eu tambĂ©m nĂŁo sou vocĂȘ. Sou o que vocĂȘ vĂȘ; Se perguntam por aĂ se a verdade Ă© relativa e isso nĂŁo sei dizer, mas minha natureza nĂŁo Ă© objetiva â depende de quem me vĂȘ. Queria, pois, entrar numa sala de espelhos e poder me encarar, sem os teus olhos. Me questionaria, por inquietude e vaidade: pode o mundo viver sem esta beldade?
VocĂȘ olha para mim e nĂŁo compreende que o que acha Ă© fruto de mera fofoca. Nem estou tĂŁo velho assim e aquele fio ali nem carecia de ser mexido. Todavia, sou muito alĂ©m da realidade. Insiste em olhar para mim buscando controlar o que vĂȘem de vocĂȘ, para que o outro perceba o que vocĂȘ pretende ser. Grande mal-entendido: vocĂȘ nĂŁo se limita aos seus olhos, vocĂȘ Ă© como te vĂȘem â ao menos, para aquele que te vĂȘ.
Um dia, um desses senhores que amavam a sabedoria, começou a dizer que os homens enxergavam inadequadamente, pois diz o seu mito que o ser humano enxerga apenas a minha sombra e que ela nĂŁo permite ver o que hĂĄ de real. Mal sabia ele que eu tambĂ©m nĂŁo deixo. Afinal, eu nĂŁo sou vocĂȘ, sou tua mĂĄscara, que vocĂȘ herdou e criou, sem que tenha notado.
Saramago se inspirou nesse homem e saiu por aĂ a dizer que em terra de cego, ter um olho pode fazĂȘ-lo rei ou escravo de sua superioridade. Mas, vejam bem, a cegueira estĂĄ exatamente em enxergar, pois aquele que vĂȘ com os olhos nĂŁo percebe o que se Ă© de fato: vocĂȘ Ă© o que vocĂȘ faz â inclusive ficar parado, duvidoso.

Como seria o mundo se parĂĄssemos de marcar encontros? SĂł lhe haveria uma solução: enxergar-se nos olhos dos outros. O que implicaria, irredutivelmente, em mirar o diferente, se preocupar com o que estĂĄ alĂ©m de vocĂȘ. NĂŁo por benevolĂȘncia, mas por perceber que vocĂȘ nĂŁo mora sĂł em si, que vocĂȘ Ă© muito mais que eu e que a cada vez que me avista, deixa de olhar para quem estĂĄ de fora do espelho â pasme, nĂŁo sĂŁo sĂł os outros, vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo mora aqui.
O cerne da questĂŁo Ă© que se eu, mero reflexo, dependo do observador para ser e vocĂȘ, que existe por aĂ, tambĂ©m Ă© aquilo que te enxergam, os olhos sĂŁo o berço do espelho, que Ă© quebrado quando surge algo diferente. Talvez seja impossĂvel deixar de buscar-se nos outros, mas perceba que os outros nĂŁo sĂŁo meus xarĂĄs e que vocĂȘ estĂĄ no doce do mel, nas nuvens formando desenhos, no belo drible, no cheiro de terra molhada, no abraço sincero. VocĂȘ estĂĄ no que estĂĄ em vocĂȘ.
Olhe no espelho. Agora olhe nos meus olhos: se puder, diga que não me ama e me conte o que hå na tua frente. Olhe mais profundamente, olhe para dentro. Faça, pois, como eu: reflita. Mas o que se é de verdade.








































Gostei mesmo… ParabĂ©ns por essa parceria!
O texto Ă© fĂĄcil de entender, nĂłs faz viajar por vĂĄrios pensamentos, mĂșsicas, datas, personagens, entre outras coisas.
Apesar de tudo isso, Ă© complicado de expressar o que sinti ao ler a coluna.
Apenas cito um trecho de uma das mĂșsicas:
“Nos deram espelhos. Vimos um mundo doente”
Parabéns por mais uma bela crÎnica.
Pensava que era vocĂȘ Felipe quem publicava tais textos, agora vi que nĂŁo Ă©.
Enfim parabens a vocĂȘ por abrir este espaço a outras pessoas e parabĂ©ns ao Marcel Albuquerque por esse texto magnĂfico, espero mais textos.
—
Paulo, o Marcel escreve todos os sĂĄbados.
Texto muito bom Marcel.
Uma das coisas mais difĂceis na vida Ă© se encarar no espelho. Olhar bem dentro dos prĂłprios olhos.
que massa cara *-*
texto interessante,mas como sempre tem que ter um chato pra comentar…
vĂȘem nĂŁo existe,Ă© vĂȘm apenas.
nĂŁo sou nenhum rei do portugues,mas Ă© apenas para auxiliar um excelente escritor em ascensao.
Confuso, palpitante… Gostei.
(http://www.iposts.net/)
Nossa, muito massa.
Parabéns.
na booa, adorei seus textos :*
E vocĂȘs?O que vĂȘem no espelho?
Juaum, de acordo com meus pequenos conhecimentos, “vĂȘm” Ă© relacionado ao verbo IR e “vĂȘem” ao verbo VER.
Mas, em todo caso, obrigadĂssimo pelo “excelente escritor em ascensao” – que espero estar correto, mais do que ortograficamente!hehe
O texto ficou legal, parabéns aà Marcel.
AtĂ© onde eu sei “vĂȘem” ainda existe, porĂ©m irĂĄ deixar de existir com a nova reforma ortografica. Mesmo assim a Ășnica mudança serĂĄ no acento, que deixarĂĄ de ser utilizado. ;D
TambĂ©m nĂŁo sou bom em portugĂȘs, mas algumas besteirinhas assim eu acho que sei, como diria meu professor sou apenas mais um que: “acha que pensa que sabe”.
muito bom, marcel…
sou suspeito pra falar, mas vocĂȘ escrevendo Ă© quase tĂŁo bom quanto falando…Ă©, pessoal, ele pessoalmente soa mais genial ainda…
parabens pelos excelentes textos, meu amigo
Muito bom! Parabéns Marcel!
No começo eu nĂŁo gostava muito do que vocĂȘ escrevia… Mas de umas colunas pra cĂĄ vocĂȘ vem se superando cada vez mais! Suas colunas, agora, nada mais sĂŁo do que as minhas preferidas!
Excelente “ReflexĂŁo”
sempre me identifico com seus textos. sĂŁo maravilhosos
e narcisismo Ă© uma palavra que me define muito.
parabéns1 ^^
Adoro seus textos.