Coluna escrita por Marcel Albuquerque
-“Dinheiro ou cartão?â€, perguntou o cobrador do minimizador de passos para a escravidão – vulgo trocador de ônibus. Como sua submissão ainda para com os pais, o pagamento era em pratinhas, que pouco valem, mas muito custam no fim do mês.
Uma vez que ela tinha sido a segunda passageira a entrar no ônibus, ficou observando todos que chegavam; Antes de tudo, calculou: “Lado direito ou lado esquerdo? Sempre falam pra se sentar do lado do motorista, pra não se machucar em caso de acidente, mas se o acostamento é do lado direito, ele vai se desviar por lá, então uma batida seria do lado esquerdoâ€. Mas, como mamãe vive recomendando, ela foi à esquerda mesmo – afinal, se sempre dizem isso, deve fazer algum sentido, pensou. Pra completar, ficou ali pelo meio mesmo, porque se na frente é perigoso, atrás, naquele horário, é muita bagunça.
Para cada um que chegava, mente fértil que ela tem, chutava profissões e, na bola de cristal de seus palpites, brincava de adivinhar a vida de estranhos. O velhinho que poderia sentar na frente e ficou lá pra trás, junto com a menina de saia: tarado; Uma mulher descabelada, com cheiro forte de água sanitária: empregada sofredora e esforçada ou vadia desleixada – se é que vocês entendem; O rapaz com a blusa do Che, óculos de armação grossa e barbão: algum militante partidário que queria mudar o mundo, com palavras fora da realidade de Mariazinha, ainda que reivindicasse saber o que era melhor pra ela mesma – ou seja, chato!
O que encucou Mariazinha é que todos os personagens daquela cena iam entrando e ninguém sentava em sua companhia. De modo perspicaz, levantou a hipótese de também estarem pensando algo dela. Será que era a mochila que ocupava espaço em demasia? A perna muito aberta, por estar morta de sono? Teria ela cara de santinha demais para algum homem vir para sentar-se ali? Será que estava feia? O cabelo fedendo? – pois só ia lavar daqui a dois dias, pranchinha, sabe como é. Não, ela auto-sugeriu que deveria ser porque as pessoas gostam de ir na frente ou atrás e a parte média é o que sobra. Ops! A mão estava no outro banco, parecia guardar lugar pr’alguém!Devia ser isso. Era isso. É, acho que era.
Foi então que chegou alguém que a despertou. Cabelo baixinho, barba por fazer e moreno – mas com pelinhos loiros na raiz, deve ter sido loiro quando pequeno. Olhos meio esverdeados, não deu pra perceber. Daquela beleza imperfeita, própria para quem tem um algo imperceptÃvel, porém avassalador. Sua roupa era uma calça jeans surrada, uma camisa social que apertava um pouco no peito – deve fazer exercÃcios – e um sapato brilhando – deve ser caridoso e ter ajudado um engraxate…Realmente, um bom rapaz. E, no mais, algumas pulseirinhas, quebrando sua imagem de rapaz sério – ah! Está procurando emprego. Além de tudo, é dedicado. Dentre os apetrechos no braço, uma indicação de crença em Santo Expedito, o que não batia com ela, pois, além de evangélica, quem ela queria naquele momento era Santo Antônio!
Mirava ele como criança querendo doce, só não sabia como abordá-lo. O que falaria? Aquele ali não era lugar para ficar com alguém, muito menos àquela hora. Pra piorar a inquietação da menina, parecia haver retribuição. Se revezavam em olhares, segundos intercalando o cruzamento. Ela não viu de fato ele olhando para ela, mas sabe que sim, assim como se conhece o gosto de barata sem comer; Deveria falar de futebol, esperar alguma deixa? Ou parar de fazer doce? Ah, claro, doce: é só oferecer uma bala. Um modo sutil e todo mundo compreende que é uma boa forma de abordagem, além de ter muito claras, suas intenções. Será mesmo? E se ele não entender ou, muito pior, achar que ela está dizendo que ele tem bafo? Ok, melhor não.
Tamanho era o encanto com aquele rapaz, que ela só sabia o nome porque viu mexendo na carteira – diga-se de passagem, também reparou nas mãos que manuseavam-na e não havia aliança. Só que…opa! Um livro de poesias. O livro favorito dela! Será que está apaixonado? Será que tem um desamor? Será que ama apenas as poesias? Será que, se amasse Mariazinha, faria uma pra ela?
Tic-tac, tic-tac, tic-tac. O tempo passa e nada acontece – boa prova de que o tempo não é senhor de nada. Sua ansiedade aumenta, junto com o calor, ao passo que diminui a distância para casa. Contudo, suas pernas se tocam. Ela consegue sentir, por debaixo daquele jeans grosso, um carinho delicado – mostrando que, apesar da cara de homem, tem sensibilidade. Mas e aÃ, senhores? Deve ela arrastar a perna nele? E se parecer vulgar? E se ele não entender? Ou, como não deve ser, se ele estiver encostando nela sem querer?
Ela está morrendo de sono, mas não quer dormir. Apesar de também não querer acordar – aquele sonho lhe parecia suficiente. Na verdade, ela não quer que ele a veja de boca aberta, de tão cansada. Ou, quem sabe, é o receio dele perceber que ela usa aparelho. Mas… Olha ali, olha ali! Ele também usa! “Pooonto no placar geral para as ME-NI-NAAAAS”, ecoou na cabeça de Mariazinha.
Em breve, ele vai descer do ônibus. Ela não terá feito nada. Melhor dizendo, chegou a imaginar um beijo quente, com aquela barba arranhando seu rosto, deixando marcada a sua passagem. Devo dizer que, tratando de arranhão, ela imaginou mais, mas vamos censurar o que ela também policia em si.
Perguntou a ele se pretende se casar na igreja e quais seriam os nomes dos seus filhos. Ele gosta de ‘Ariel’, por causa do anjo – ela, por causa da pequena sereia. Porém, ela quer um casal, então precisa de um nome para o garoto – e ele para uma garota, pois acha que ‘Ariel’ é nome de menino. Nada importa diante daquele encanto recÃproco.
Ele encosta nela, pedindo passagem e ela acorda. Ele vai descer, e ela que cogitou acompanhá-lo, atordoada com o que acabara de sonhar, não o fará porque está atrasada, mas quis ver, em câmera lenta, sua despedida.
Ele se foi. Levou-a, sem saber. Talvez, o amor da vida dela. Provavelmente, uma ilusão passageirÃssima. Algo nele fazia relembrar o ex, mas soava como sendo o inverso: ela via no antigo namorado algo que fazia se compenetrar nesse estranho. Seria o cheiro, a forma de gesticular ao conversar no celular? O sorriso de canto de boca? Na verdade, a sensação estava era impregnada na Mariazinha; o carinho no outro era pra fazer bem à s suas mãos e a fome que tinha do estranho era a busca de amar-se.
Piscou os olhos de novo e estava no terminal. Mais um namorado diminuto.


































Seus textos nos levam a fazer uma verdadeira viagem , terminar de ler foi como acordar de um sonho , sair de um filme , parabéns !
Enquanto ia atualizando pra ver novos textos, deparo-me com um mais novo rs.
Realmente, tu escreves muito bem. A cada texto, um novo tema, uma nova estoria.
Alguns nem tão bons quanto outros, mas, quando você aborda um tema que tem certa relevância…tá de parabéns.
Quanto a este, acho que todo mundo passa por situação parecida, na ânsia de querer que a pessoa que está próxima, que apareceu do nada, seja aquela que você deseja ter pra todo o sempre ao lado, mas quando pisca, já se perdeu…
Acho que até viajei hahahahhaha
Muito bom mesmo. Você nasceu pra isso, devia escrever um livro, um romance talvez. Mas parabêns mesmo, isso acontece comigo quase tododia.
deveria sim escrever um livro, um de cronicas. eu compraria….
Muito bom!
Faço uma pequena viagem após ler seus textos!
Me identifiquei com a personagem, apesar de ser homem. Tambem fico observando as pessoas ao entrarem no onibus e imagino suas profissões, alem de tambem ter varias ‘namoradas diminuto’. Muito bom o seu texto. Parabens.
Puts…
ótimo texto!
Realmente muito envolvente tua maneira de escrever. Parabéns.
Que delÃcia de texto. Leve e prazeroso de ler. Confesso que me vi na personagem dentro do ônibus, a dúvida de onde sentar, a análise de quem entra e a estranheza das pessoas não sentarem ao meu lado. rsrs
Concordo com o Bruno Lopes você seria um grande escritor mais lhe vejo mais escrevendo contos do que romances.
Parabéns Marcel por mais esse presente aos letores deste blog.
Clara – Que óóótimo!Espero que a viagem tenha deixado você no destino certo!haha…;)
Éber – Se viajou junto com a viagem do busão, tá valendo!E é impressionante como isso acontece em ônibus…ô carência!
Bruno e Suelen – Tenho planos de escrever um livro, sim. Ano passado, deixei de publicar um de poesias, por bobeira. Mas ‘inda tomo coragem e procuro uma editora…mas pra ser romance, tenho que amadurecer algumas idéias e ter tempo…
AdalÃcio – Acho que a diferença em a personagem ser mulher são as idéias/planos, nesta situação. Mas me parece que é algo comum…
Tatiane – Viaje, mas volte sempre! =)
Parabéns ao escritor do texto. Me identifiquei, pois diversas vezes fico observando rapazes que por alguma maneira me chamam atenção dentro do ônibus. E agora, cada vez que isso acontecer, vou pensar “mais um namorado diminuto”.
Abraços.
Consegui me deixar levar pela narrativa o texto inteiro, muito bem feito
Só uma coisa, ela viu o livro de poesias do cara que ela gosta também e não sabe como puxar assunto? Mas vááááá… Quer deixa melhor de um assunto em comum fácil de puxar assunto? xD
Tenho escrito um texto que descreve a mesma situação, mas com uma homem de personagem, foi mais fácil, mas agora nem vou publicá-lo, vai parecer um lixo perto desse. =P
Acho difÃcil encontrar alguém que nunca passou por essa situação(só quem é rico e nunca anda de ônibus), falar a verdade já até abordei uma menina uma vez, e deu certo! hahahahaha.
Acho que todos irão se identificar, também por isso gostei muito do texto.
Muito bom.
Que bom o texto, Marcel! Adoro essas ilustrações, fotografias da vida real… São coisas tão normaizinhas, mas que, quando ditas são tão belas… Parabéns! =)
É interessante. Mas é antiquado demais. (E certamente algo que eu poderia ter escrito!)
—
Então escreva, ora.
Mto bom! Cara ja pensou em escrever um livro?
Me senti dentro do onibus observando o olhar furtivo da garota, e tenho q confessar q ja passei por uma situação dessa =P
Marcel vc tem outros contos publicados?
Abs
Muuito bom o texto !
Me identifiquei muito xD
Veja só, pessoa DOS SONHOS, esse texto foi bem light – de fato. Nada lá difÃcil de ser escrito, concordo, mas o objetivo nem sempre é a complexidade. Agora…antiquado?
Citando Wittgenstein: “Minhas palavras são os limites do meu mundo”. Portanto, precisaria saber o que exatamente você entende como ‘antiquado’, porque as palavras usadas no texto não o são…e o tema acredito que também não!Talvez as idéias de Mariazinha…só que essa é a óbvia intenção – ou deveria ser.
Gosto do jeito que você escreve, Marcel.
Jeh, eu escrevo aqui td sábado!rs
Marcel, não precisa tentar explicar nada para esse tal de DOS SONHOS, é só bloggeiro frustrado.
Muito bom o seu texto (seus textos).
Nossa, seus textos são muito bons..
Parabéns.
Caro Marcel
Mais uma vez o parabenizo pelo ótimo texto. Muito bom!
Cara, você tem que escrever com mais frequência e nos brindas com mais bons textos.
Quando os leio parece que o volume do barulho da casa diminui, minhas sobrinhas (endiabradas) param de correr e gritar e etc. Um texto que prende a atenção a quem o dedica um mÃnimo de atenção. Um verdadeiro transe.
Procuro não fazer juÃzo de valor e criticar, apenas leio e deixo que me agregue algo.
Parabéns e felicitações.
Gostei bastante.
Simples e bom. Como as coisas boas da vida.
Seria legal se o Felipe convidasse outros caras bons para escrever no CR. Só não comento mais isso pra ele não pensar que só estou dizendo isso pra ver se ele me convida.
Ótimo texto, já passei por situação parecida!!
Interessante o modo como descreve as coisas, nos faz sentir espectadores reais da cena. Saindo de onde estamos e entrando em um “mundo paralelo”…
Uau, acho que estou puxando muito saco né?! hahaha
Muito bom, parabéns!
Não que precise puxar, Aline, mas a única forma d’eu saber se vcs gostaram é lendo os comentários – então puxe, sim!huaUHAauhuahA…até pq, como escrevo crônicas, as pessoas não costumam discutir o assunto dps, como em outros posts.
Pega uns selos que deixei pro teu blog: Criatividade 0
Texto assim só escreve quem tem a leitura em dia…isso me faz pensar que talvez eu deva voltar a ler alguns livros, faz um tempão que não pratico a “arte da leitura”.
Parabens pelo texto!
Cara, de mais… Uma viajem mental impressionante. Parabéns.
Senti esse texto extremamente familiar. Quase sempre no ônibus passo por isso. Exceto a parte de escolher o lugar pra sentar. Tá sempre lotado D:
meeo
troca o nome da Mariazinha por Isadora
sério. essa sou eu
tenho um namorado de verdade (10 meses)
mah eu viiivo de paixões x.x
sou louca, mesmo
todo dia, eu pego ônibus pra ir pro técnico. e a maior parte das vezes, eu pego o coletivo com um garoto que estuda num colégio que fica em frente ao ponto que eu vou -Q
e eu fico naquela: maior japinha gatinho, fico olhando de soslaio, prestando atenção se ele tá me olhando, e às vezes, os olhares se esbarram. e eu fico tooda boba, rindo sozinha, felizinha porque ele tá olhando pra mim
pareço adolescente diante do primeiro beijo.
não consigo ficar parada nesse sentido.
tenho uma “paixão” assim na escola, no treino, a cada dia tedioso que passa por mim…
existem muitas pessoas interessantes nesse mundo.
e acho que nunca vou deixar de prestar atenção nelas
mah quando o dia acaba, o momento some, e só vem o cansaço. às vezes, uma pequena frustração
mah o que vale, mesmo, é o momento. que é mágico, como experimentar um doce novo
amo ver (e conhecer) pessoas novas. e interessantes
aliás, antes que eu me esqueça: belo texto! *———-*
muito solitário, e expressa bem a cabeça de uma pessoa:
repleta de pensamentos que, muitas vezes, nem tem nexo
amo muito tudo isso *-*
realmente , isso sempre acontece.
e por mais tempo que se passe trocando olhares
nunca vi ninguem ‘abordar’ e conhecer alguem no onibus.
muitoo bom o texto!
Muito bom o texto, adorei o trocadilho.
Também me identifiquei com algumas partes… Exceto na parte em que ela se interessa por um cara de sapato brilhando, eu já me interessaria por um cara de All Star… e diferente da Mariazinha, puxaria assunto se ele estivesse lendo um livro que gosto. DaÃ, se ele for um babaca, descobre-se na hora… e minutos depois já esquecerÃamos o namorado diminuto.
[...] Perolas do Enem Cerveja Erótica 10 sinais de que você esta vendo um péssimo filme de magos Tipo de Homens Namorada de 1 minuto [...]
Nossa muito o texto…Parabéns
Adoro viaja em qualquer lugar pensando como as pessoas são, é muito divertido.
Me identifiquei demais.
[...] Namorado de minuto [...]
Não gostei. (Mentira, gostei sim.)
Eu pareço bastante com a Mariazinha. E já tentei colocar esse mesmo texto no papel milhares de vezes. Nunca saiu da vontade.
Parabéns. Belo texto mesmo.
Muito bom este artigo.
Eu pareço bastante com a Mariazinha. E já tentei colocar esse mesmo texto no papel milhares de vezes. Nunca saiu da vontade.
Parabéns. Belo texto mesmo. [2]
Me arrisco a dizer que foi o melhor texto do Controle!
Deyse…adoro trocadilhos!rs…falo muito(MESMO!)no cotidiano e vi que daria um bom tÃtulo. Agora…quanto ao sapato brilhando…olha, acho que Mariazinha também prefere All Star, mas o cara que apareceu estava mais formal, não sei de onde vinha…hehe
Sanseverini e Glauber: eu tô pra escrever esse texto deve ter uns dois anos!aAhuaUHAuh…antes, era uma poesia. Agora, deu nisso aÃ!=)
Apesar de “Mentira!” ser um dos meus favoritos, não teve o retorno esperado. Mas vocês me reanimaram com esses comentários!;)
Muito bom Marcel.
Gosto tanto dos seus textos que sempre deixo pra ler o do sábado passado, porque dai, sempre tem algum texto seu pra ler quando dá vontade, rsrs.
Mas ainda acho que aquele “A incrÃvel e triste história de Tatu “, foi o melhor que você já escreveu aqui no CR
.
Abraços
Muito bom o texto do cara! Genial!!!
BelÃssimo texto.
Gostei também do trocadilho do tÃtulo e a palavra final.
Viajei legal.
Parabéns!